Especial OJ Simpson: Entrevista com Jeffrey Toobin

Em outubro de 2008, o ex-jogador de futebol americano Orenthal James Simpson, mais conhecido como OJ, foi considerado culpado por ter roubado e sequestrado dois vendedores de artigos esportivos. OJ foi sentenciado a 33 anos de prisão e, em outubro,  ganhará liberdade condicional.

Todavia, não era a primeira vez que OJ se sentava no banco dos réus. No dia 12 de junho de 1994 dois corpos foram encontrados, brutalmente assassinados, em uma casa em Los Angeles: Nicole Brown Simpson, ex-mulher de OJ e, Ronald Lyle Goldman, amigo de Nicole. OJ, que tinha viajado para Chicago apenas algumas horas depois dos assassinatos, voltou para Los Angeles e foi levado para interrogatório.   

Los Angeles, na época, passava por momento delicado na questão racial. Grande parte da polícia da cidade era extremamente racista e negros sofriam todo o tipo de violência por parte dos policiais. OJ Simpson era negro, mas recebia um tratamento diferenciado.  O fato de ter sido uma estrela do futebol o colocava em um enorme pedestal.

Orenthal James Simpson era uma figura peculiar. Quando estava cercado de seus “amigos” ricos, de maioria branca, OJ era alegre e carismático. Todavia, a relação com Nicole não era a mesma, além de abusivo ele era extremamente violento com a ex-mulher. Existem gravações de Nicole desesperada, pedindo socorro para a polícia, após ser agredida pelo então marido. Porém a única penalidade de OJ foi prestar 120 horas de serviços comunitários, que “pagou” organizando um torneio de golfe para celebridades.

Antes dos assassinatos, Simpson tinha uma relação íntima com alguns policiais de Los Angeles. O racismo dessa mesma polícia parecia desaparecer na presença do ex-jogador de futebol americano. Eles eram convidados frequentes das festas na casa do astro e se sentiam privilegiados por serem amigos do grande OJ Simpson. Esses mesmos policiais eram os que acobertavam os casos de agressões de OJ contra Nicole.

O país foi dividido: brancos acreditavam que OJ era culpado, mas os negros o viam como mais uma vítima de uma polícia racista e que ainda era capaz de implantar provas para incriminá-lo. Jeffrey Toobin é repórter da revista The New Yorker. Além de acompanhar o caso de perto, Jeffrey foi responsável por escrever um dos livros mais famosos sobre o caso: American Crime Story – O Povo Contra OJ Simpson (DarkSide, R$44,20). A Caverna do Byte conversou com o jornalista, através de e-mails, e ele comenta sobre a divisão dos Estados Unidos: “A principal lição do caso é que o modo como pessoas brancas e negras americanas veem a justiça é muito diferente. É uma revelação perturbadora”.

O caso foi uma sucessão de erros: provas foram mal coletadas e um interrogatório mal conduzido por policiais racistas, que ao deporem, comprometeram o julgamento de um júri de maioria negra. Outro fator determinante para o veredito foi a escolha dos promotores Marcia Clark e Christopher Darden. Toobin comenta: “Os promotores não eram tão qualificados ou sortudos como os de advogados de defesa”.

Os brutais assassinatos acabaram passando para o segundo plano. O julgamento deixou de ser sobre dois homicídios para se tornar uma “guerra” entre negros e a polícia racista de Los Angeles. O resultado dessa disputa foi a vitimização de um homem, provavelmente culpado, que sempre escolheu fechar os olhos para a situação de outros negros ao seu redor. “É uma estranha ironia. OJ foi salvo pela comunidade negra que ele ignorou” comenta Jeffey.

 Todo o caso OJ Simpsons foi um espetáculo midiático. Houve perseguição de carro, violência doméstica e divulgação de fotos íntimas. A imprensa cobria cada detalhe possível, o julgamento era transmitido ao vivo pela televisão e a população consumia com afinco. “O caso combina tudo o que os americanos são obcecados- sexo, raça, Hollywood, esportes e ainda que a única testemunha era um cachorro”, afirma o jornalista.   

Em outubro de 1995, em cerca de apenas 3 horas e meia, o júri dá seu veredito: Orenthal James Simpson é inocente dos crimes de homicídio contra Nicole Brown Simpson e Ronald Lyle Goldman. Mais uma vez o país se divide: enquanto brancos choram diante da inocência de um agressor violento e provavelmente assassino, negros festejam a inocência de um homem negro que conseguiu ultrapassar a barreira racial imposta pela polícia da época.

Confira aqui a entrevista na integra:

Caverna do Byte: Como você chegou no caso?

Jeffrey Toobin – A editora da The New Yorker na época, Tina Brown, me enviou para Los Angeles para encontrar uma história boa e exclusiva

Caverna do Byte: O que foi o caso OJ na história da imprensa americana?

Toobin –  O caso combina tudo que obceca os americanos- sexo, raça, Hollywood, esportes, e a única testemunha era um cachorro.

Caverna do Byte: Você acredita que a cobertura da mídia contribui para o resultado do julgamento?

Toobin – Na verdade não. Eu acho que a tóxica história entre a comunidade negra de Los Angeles e o departamento de polícia da cidade foram o fator principal:

Caverna do Byte: Como tu avalia o comportamento do júri e do resto da população americana? Que muitas vezes ignorou a brutalidade do assassinato para se focar na questão racial e no fato de OJ ser uma estrela.

Toobin –  É uma estranha ironia. OJ foi salvo pela comunidade negra que ele ignorou

Caverna do Byte: Como foi a repercussão no país após OJ ter sido inocentado?

Toobin –  O país foi lembrado das diferenças raciais que existem no país.

Caverna do Byte: Qual foi o seu processo para transformar a história do OJ em livro?

Toobin – Eu acompanhei o julgamento dia a dia e quando finalmente terminou, eu voltei e entrevistei todos os principais personagens sobre as suas perspectivas do que havia acontecido.

Caverna do Byte: Recentemente saiu uma série inspirada na sua obra. Você acredita que esse meio que alcança pessoas de fora dos Estados Unidos e faz que outras pessoas discutam ética jornalística e ética jurídica?

Toobin – Acho que uma brilhante série de televisão como American Crime Story ilustra tanto os aspectos distintivos da vida nos Estados Unidos, bem como questões universais enfrentadas por todas as pessoas.

Caverna do Byte:  OJ fechou os olhos por um longo tempo sobre a violência que outros negros sofreram. Contudo, foi apenas inocentado por negro e ser uma estrela do futebol. Como tu avalia o comportamento do júri e do resto da população americana? Que muitas vezes ignorou a brutalidade do assassinato para se focar na questão racial e no fato de OJ ser uma estrela.

Toobin – É uma estranha ironia. OJ foi salvo pela comunidade negra que ele ignorou.

Caverna do Byte: Como jornalista o que o caso te ensinou?

Toobin –  A principal lição do caso é o modo com que pessoas brancas e negras americanas vêm a justiça, e como são visões muito diferentes.É uma revelação perturbadora.

 

vitoriamollerke@gmail.com'

Amante de Game of Thrones, Supernatural, Mr.Robot, de personagens complexos e de tudo que tenha uma boa história. Mais Geek do que Nerd. Livros e filmes são paixões, mas séries são o grande amor da vida. Entre os pecados capitais o favorito é a gula. Escolheu o jornalismo pela pouca quantidade de números.

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