SobrePOAnatural

Segundo o Dicionário Aurélio o significado de “imaginário” pode ser: que só existe na  imaginação ou ainda que só pela imaginação se pode alcançar. Figuras como a do Papai Noel ou a do Coelhinho da Páscoa fazem parte do imaginário de grande parte das pessoas. Esse imaginário em torno desses seres fantásticos não atingem somente as crianças, mas também pais e familiares entram no espírito dessas figuras na tentativa de manter a inocência das crianças por maior tempo possível. Porto Alegre também tem seus Papais Noéis e seus coelhinhos das páscoas.

Na capital gaúcha, no final da Rua das Andradas e no topo de 62 degraus, fica a igreja mais antiga de Porto Alegre: a Igreja Nossa Senhora das Dores. Em 1807 ela começava a ser construída, mas demoraria quase 100 anos para  ser finalizada. No início de sua construção, que aconteceu durante o período de escravidão, o senhor Domingos José Lopes cedeu o escravo Josino para trabalhar na obra da igreja. O escravo foi acusado de roubar material de construção. Josino sempre alegou inocência, mas mesmo assim foi preso e sentenciado à morte pela forca. A lenda conta que, no momento de sua execução, o escravo teria rogado uma praga no seu senhor: ele nunca veria a igreja pronta.

O leitor pode acreditar ou não em superstições, mas um fato é inegável: a praga se concretizou, já que Domingos José Lopes não sobreviveu para ver a obra pronta. Somente em 1901 a igreja foi finalizada, com a conclusão das torres. A arquiteta Agatha Muller de Carvalho acredita que lenda do escravo Josino seja verdadeira: “Acredito, porque eu acho que as coisas que a gente faz acabam voltando de alguma forma. Tudo que fizeram com ele, de alguma forma vai voltar”, comenta.

Ao longo dos anos a lenda foi se espalhando e sofrendo alterações. Ela deixou de ser direcionada para Domingos José Lopes para atingir a igreja em si. Ou seja, a Igreja Nossa Senhora das Dores nunca seria finalizada e suas torres se tornaram malditas. Segundo a museóloga Caroline Zucchetti, a igreja é muito conhecida pela a lenda do escravo “a gente não nega, porque isso é cultura, isso faz parte da história oral da igreja, do imaginário da cidade, faz parte de um período que é muito triste, mas também muito importante. A igreja das Dores tem uma ligação muito forte com a cultura afro, então a gente acolhe isso, mas a igreja não se limita a praga do Josino”, afirma.

Seguindo na Rua das Andradas até chegar na esquina com a Rua Caldas Júnior fica o jornal Correio do Povo. O jornal foi fundado por Francisco Antônio Vieira Caldas Júnior em 1º de outubro de 1895 e até hoje habita o mesmo prédio. Após a morte de Caldas Júnior, foi seu filho, Breno Caldas, que assumiu a presidência do jornal.

  As histórias que circulam pelo  prédio da Rua Caldas Júnior 219 vão muito além das jornalísticas: portas se mexendo sozinhas, vultos passando, marcas de mãos em cadeiras e até aparições de fantasmas. Anália Feijó Köhler é redatora do jornal e trabalha no turno da noite. Em uma determinada noite, Anália ficou responsável pelo fechamento do jornal e por isso estava sozinha na sala de redação. Uma de suas tarefas era  apagar as luzes e fechar as portas do escritório que uma vez foi de Breno Caldas.

Anália conta que fantasmas ou espíritos não são vistos, mas sentidos: “Eu senti. A gente não vê, mas a gente sente que tem alguma coisa. Eu senti uma imagem”. A imagem que Anália sentiu era de um senhor baixinho, barrigudo e que usava uma roupa de linho cor de creme e um chapéu de palha. Ela relatou o incidente para a chefe de redação da época, além das roupas Anália contou a posição em que o senhor se encontrava. A colega comentou que era a mesma posição que Breno Caldas era conhecido por ficar.

Depois desse episódio, as chaves do antigo escritório de Breno Caldas simplesmente desapareceram.

Assim como Anália, Luiz Felipe Mello também teve sua própria experiência sobrenatural. Em uma determinada noite, o editor de online estava trabalhando quando percebeu que uma cadeira, que inicialmente estava parada, se deslocou de maneira brusca e o acertou. Alguns dias depois, um colega o alertou que havia uma marca de mão molhada na cadeira, mas não falou nada antes com medo da reação de Luiz. Mello não se assustou, acabou levando a história na brincadeira: “A gente até leva na brincadeira, justamente por saber dessas histórias daqui do Correio do Povo e até brinca com quem vai ficar no plantão à noite”.

O jornalista Renato Panattieri é o encarregado pelo fechamento do jornal e seu expediente pode chegar até às duas da manhã. Ele afirma ter escutado barulhos similares a um copo plástico caindo no chão, mas isso não o faz acreditar em fantasmas ou espíritos: “Como jornalista a gente tem em princípio acredita em tudo e duvida de tudo, então a gente sempre tem que checar alguma coisa”, conta.

Na parte mais alta do centro histórico de Porto Alegre fica o Museu Júlio de Castilhos, que no passado era o lar do primeiro governador do Rio Grande do Sul e seus familiares. Atualmente, existe a lenda que o casarão abriga os fantasmas de Júlio de Castilhos e sua esposa. O primeiro governador do Rio Grande do Sul morreu na sua própria cama após remover um câncer na garganta. Sua  esposa,  Honorina Castilhos, também morreu na casa, diz-se que seria suicídio, mas esse fato nunca foi comprovado.

Em certos cômodos do museu  é perceptível uma troca de temperatura, ou seja, eles são mais frios se comparados com a temperatura da rua. Isso é logicamente explicado pelo fato do casarão estar cercado de prédios que impedem a entrada de luz solar, mas existe a explicação “sobrenatural”: esse frio é causado pela presença dos espíritos de Júlio de Castilhos e  Honorina Castilhos.

Gabriela Corrêa da Silva é formada em Artes Visuais e hoje ocupa o cargo de diretora do Museu Júlio de Castilhos. Segundo ela, a definição de fantasma pode ir além de assombração: “O meu fantasmas é a imaginação. Quando tu fica em silêncio nessa sala com essa iluminação, é quase palpável estar em outro tempo. E se tu concentrar um pouquinho tua imaginação, pode ser até fácil tu ver um fantasma. Uma mulher de época passando por aqui ou uma sombra de Júlio de Castilhos no seu terno”.

Nossa viagem se encerra numa ilha,  2,4 km a oeste da Ponta dos Cachimbos em Porto Alegre. Para chegar lá, você pode usar um barco ou até mesmo uma panela com uma colher de remo. O destino é a Ilha das Pedras Brancas, popularmente conhecida por “Ilha do Presídio”.  Em 1857, o Exército construiu na ilha a  4ª Casa da Pólvora de Porto Alegre, esse depósito funcionou até meados de 1930, quando os militares acabaram por abandonar as instalações.

Em 1956, a ilha se torna uma prisão de segurança máxima e permanece assim até 1973. Durante a época do regime militar, a prisão abrigava não só presos perigosos, mas também presos políticos. Em 1980,  denúncias de maus tratos e torturas, levaram ao desativamento da prisão e 25 detentos foram transferidos para a Penitenciária Estadual do Jacuí, em Charqueadas. Uma das histórias mais famosas em torno da ilha é que um presidiário teria fugido dentro de uma panela, usando uma colher de pau como remo.

Eduardo Raguse Quadros é membro da AMA – Associação Amigos do Meio Ambiente, responsável por fazer passeios na época em que a ilha recebia visitas, e conta sobre o imaginário em torno da ilha: “Muitas pessoas relatam sentir uma energia pesada ao percorrer as ruínas do presídio, por seu aspecto bucólico, o silêncio, o abandono das estruturas, inscrições nas paredes, a umidade, o pequeno espaço das celas, a pouca iluminação. Estes elementos, somados ao imaginário do visitante, ao se colocar no lugar das pessoas que passaram por lá, seus medos, o frio, a tortura, a fome, o isolamento, criam elementos que impressionam. Outro ponto que colabora para este imaginário é a existência de dois túmulos na Ilha, que seriam de época anterior ao presídio”.

Museu, ilha ou até mesmo seu apartamento, todos possuem suas histórias e seus fantasmas. “Eu poderia dizer que todas as casas de Porto Alegre tem seus fantasmas. Porque as pessoas que moravam em Porto Alegre antes de nós nascermos, hoje são fantasmas”, comenta Gabriela Côrrea.

 

vitoriamollerke@gmail.com'

Amante de Game of Thrones, Supernatural, Mr.Robot, de personagens complexos e de tudo que tenha uma boa história. Mais Geek do que Nerd. Livros e filmes são paixões, mas séries são o grande amor da vida. Entre os pecados capitais o favorito é a gula. Escolheu o jornalismo pela pouca quantidade de números.

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