Byte no Oriente ESPECIAL – Um passeio por Kabuki-cho, o distrito mais perigoso do Japão

 

O Japão é de forma geral um país bem seguro, mas Kabukicho é uma das áreas mais perigosas do país.
Kabukicho fica em Shinjuku (Tóquio) e é um “Red Light District” (Distrito da Luz Vermelha), ou seja, é um lugar repleto de bares, motéis e clubes de acompanhantes de ambos os sexos.

Ao mesmo tempo, é um ótimo lugar para se visitar, há muitos karaokês, fliperamas, cassinos, restaurantes, cafés e clubes noturnos.

Baseando-se nisso, a Caverna do Byte resolveu dar uma olhada na loucura de Kabukicho através dos olhos de uma moça de 24 anos, que conheceu o pessoal da Caverna do Byte alguns anos atrás, durante inúmeras horas de jogatina online. Ela é nascida e criada em Tóquio mas que vive atualmente em Okinawa. Para trazer uma segurança maior para ela, nós a trataremos aqui como Megumi, codinome escolhido pela mesma.

 

Logo de cara, Megumi nos deu dicas que servem como a bíblia da vida nas madrugadas de Kabukicho

 

1- Se um lugar parece perigoso, ele é.

 

Estabelecimentos com uma faixada que te passa insegurança são praticamente uma garantia de que você terá problema. Muitos estabelecimentos são somente disfarces para encontros de grupos que possuem operações ilícitas, e bom, não é uma boa interromper esses caras.

2- Há também outros golpistas. homens e mulheres de todas as nacionalidades vão chegar até você e tentarão te convencer e visitar o lugar onde eles trabalham.

 

Eles estão na frente de algum lugar razoavelmente famoso na região, dizendo que haverá homens/mulheres de sobra, bebida, comida e diversão no local onde elas/eles trabalham. Se o lugar não for exatamente atrás onde essa pessoa se encontra IGNORE ESSE PESSOA.
Existem inúmeras casas noturnas de prestígio em Kabuki-cho, e nenhuma delas manda seus funcionários capturarem clientes longe do local, essa prática é típica de pequenos grupos que capturam turistas. Oferecem serviços por um valor x para eles mas na hora de pagar, exigem um valor y. E vai por mim, se você não pagar….
Há também casos em que drogas são colocadas nas bebidas desses clientes para que seja mais fácil roubar os pertences deles.

 
3- Prostituição, embora ilegal, é extremamente comum no Japão.

Um terço dos homens diz já ter utilizado algum tipo de serviço onde havia troca de dinheiro por sexo.
Porém, existem as hostesses, que no Japão são mulheres que são literalmente acompanhantes. Elas vão conversar com o cliente, rir de suas piadas e etc. Algumas delas realmente não aceitarão fazer sexo com o cliente por dinheiro, embora outras aceitem. Também não é nada difícil encontrar esses clubes, já que cartazes gigantes com as fotos das meninas ficam espalhados por todo os lugares.

 

Há também, claro, a versão masculina dessas meninas, os hosts.

 

Eles costumam ter um ar andrógino, típico do Japão, e esses caras recebem rios de dinheiro de algumas mulheres, apenas para fazer companhia para elas.
As hostesses/hosts que aceitam dinheiro em troca de sexo vão deixar isso claro em algum momento, e caso isso não aconteça, NÃO ofereça dinheiro por sexo. hostesses/hosts que não possuem o costume dessa prática podem se ofender e acabar causando problema para você.

 

 

4- Alguns lugares específicos, como o “Parisienne Café”, são conhecidos por serem pontos de encontro entre membros de organizações criminosas (a Yamaguchi-gumi nesse caso).

Embora o código de conduta dessas organizações forneça proteção para os civis, nem sempre ele é levado a sério.
(A Yamaguchi-gumi citada é a mais poderosa dentre todas as organizações criminosas do Japão, mesmo sendo que no final de 2015 quase 10% dos seus membros saíram e se afiliaram a uma nova organização rival chamada Kobe Yamaguchi)

 

 

5- Membros das diferentes organizações criminosas entram em conflito frequentemente

 

Grandes brigas com bastões, facas e outras armas brancas são muito frequentes em Kabuki-cho. Caso você veja uma briga, agressão e/ou discussão entre homens (geralmente vestindo ternos), fique bem longe, não tente ajudar.

 

6- Lutas por dinheiro acontecem em alguns lugares, não se intrometa, não interfira, contudo, seu dinheiro em apostas sempre será bem-vindo.

 

7- Caso você identifique membros de organizações criminosas na rua ou em algum estabelecimento, evite olhar nos seus olhos. Poucas coisas causaram tantas agressões em kabuki-cho quanto olhar nos olhos de um gangster.

 

 

Entre as diversas conversas que Megumi teve com nossa produção, inúmeras perguntas foram feitas, estas foram algumas das mais interessantes.

 

Byte: Então, Megumi, Kabuki-cho… Você diria que é um lugar que está incluído na sua lista de lugares preferidos no Japão?

Megumi: Sim! (risos). Eu adoro sair, gosto de festas e gosto de curtir com meus amigos, mas existem vários lugares para isso. Kabuki-cho pode causar tanta dor de cabeça que eu prefiro não ir com frequência, mas não quer dizer que eu não goste de lá.
Byte: Qual foi a coisa mais estranha que você já presenciou em Kabuki-cho?

Megumi: Olha, histórias não faltam, mas eu já presenciei uma briga entre dois grupos de homens, sendo que haviam um pinguim, um polvo, uma tartaruga e um tanuki no meio(eles eram mascotes de alguns restaurantes, eu acho), eu provavelmente nunca vi tantas cadeiras sendo quebradas quanto naquele dia

 

 

Byte: Há alguma experiência específica na qual você sentiu muito medo lá?

Megumi: Muitas. Tenho uma amiga de infância que ainda mora muito perto de Kabuki-cho. Eu fui visita-la alguns anos atrás e nós fomos em uma festa em Kabuki-cho (próxima da entrada para o distrito) e ela acabou bebendo demais e voltando pra casa mais cedo, mais ou menos pelas 2 da madrugada. EU continuei na festa e saí de lá um pouco depois das 4. Entenda bem, existem inúmeros lugares no Japão que embora desertos, são razoavelmente seguros, e eu resolvi voltar andando para o apartamento dela, que ficava menos de 15 minutos (andando) da festa. Foi somente nos últimos quarteirões que percebi que estava sendo seguida desde Kabuki-cho por um homem de boné. Quando ele percebeu que eu o tinha visto (o que foi bem evidente, já que eu estava quase correndo e não parava de olhar pra trás), eu juro que eu o vi tirando uma grande faca da cintura. Depois disso eu só corri e parei quando consegui pedir ajuda para um grupo de mais ou menos umas 7 pessoas que estavam na frente de um prédio próximo ao dela. A essa altura (por sorte) o cara já não podia mais ser visto.
Byte: Isso foi bem o que eu imagino do estereótipo japonês de um assassino, para ser sincero.

Megumi: (risos), grande parte do que é retratado na ficção japonesa acontece de fato aqui. Algo que é muito estranho para vocês no ocidente é algo frequente aqui, e vice-versa também, tenho certeza.
Byte: Me fale um pouco sobre a parte boa de lá

Megumi: É um lugar muito colorido, muitas pessoas passeiam lá e nada demais acontece. Há muitas cafeterias e restaurantes interessantes que devem ser conhecidos, tudo que precisa é de um pouco de cuidado. É um lugar razoavelmente exótico, você precisa estar preparado, entende?

Restaurante famoso tematizado com robôs

Byte: Uma vez você já me contou uma história sobre o “Parisienne Café”, pode contar ela de novo?

Megumi: (risos), ah, foi uma história bem simples na verdade. Eu estava passando com duas amigas perto dali e então dois homens saem lá de dentro, um na frente do outro. O que está atrás chuta o outro nas costas, o que faz com que ele dê com o rosto no poste. No exato momento em que ele bate no posto e o impacto o joga de volta pra trás, o homem de trás dá um soco na sua cabeça que o faz bater com o rosto novamente no poste. Depois disso o homem o arrastou para dentro do café novamente. Se eu não tivesse visto com os meus próprios olhos, acharia que era algum crossover entre “Os Três Patetas” e “Warriors”.
Byte: (risos), essa deve ser a melhor descrição de um evento, EVER.
Por fim, defina kabuki-cho em poucas palavras.

Megumi: Loucura, perigo, diversão, memórias e cadeiras.

lucascthulhu@gmail.com'

Apesar de odiar tirar fotos, Lucas é um cara simples: Se algo pode fazê-lo rir, chorar ou se arrepiar, ele estará lá. Amante dos trabalhos de Junji Ito e de cookies, ele prefere canetas do que teclados na hora de escrever, além de gostar de retrucar a opinião de técnicos profissionais de futebol americano no seu tempo livre (mesmo sabendo que eles são profissionais). Ele odeia falar de si próprio na terceira pessoa, mas pode abrir exceções de vez em quando. (sacaram o que eu fiz aqui? xD)

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